A inconveniência das verdades




Carlos Alberto Fernandes*

Para que excessos nas virtudes? São Tomás de Aquino dizia que não deveria haver excesso na virtude, porque não há virtude onde há excesso. Daí as limitações da paixão e a atualidade da expressão poética de Vinícius de Morais a propósito do amor: que seja eterno enquanto dure. Chico Anísio se foi, mas o bordão do personagem Pantaleão, mantém-se vivo e atual: É mentira Terta?

A verdade, nada conveniente, do ponto de vista político, é que o povo também tem sua culpa. A rua está cheia de cidadãos hipócritas que agridem o meio ambiente.

Vendem seu voto e sua consciência. Cometem infrações de trânsito. Violentam crianças e mulheres e ainda querem mamar nas tetas dos governos do mesmo modo que os políticos corruptos.


Enfim, o povo e suas lideranças sociais têm também responsabilidades sobre esse comportamento cínico e danoso da nossa cultura política. Verdades, quem é que as quer? Aduzia Fernando Pessoa - a convivência social sem as chamadas meias-verdades seria uma chatice.

Qualquer um de nós é capaz de dizer que é presunção exagerada alguém arvorar-se a saber até onde vão as possibilidades e impossibilidades do fazer ou do dizer coisas; particularmente, coisas que, apesar de inverossímeis, devem fazer bem aos ouvidos de qualquer ser humano.

A tal da verdade é tão complicada que muitos preferem ignorá-la, pois ela pode
inviabilizar qualquer fantasia que alimente o nosso ego e as nossas vaidades. Eça de Queiroz já dizia que fazer poesia é como fazer salsicha. Se as mulheres descobrissem como os poetas fazem suas poesias elas seriam as primeiras a não acreditar na sinceridade dos poemas de amor.


No âmbito da política, as verdades são mentiras processadas. Todos sabem, mas fingem não ver. E ver pode ser mera ilusão de ótica. Seja o calvário do prefeito. Seja as relações promiscuas do setor privado com os governos. Seja a corrupção generalizada, independente de cores partidárias.

Enfim, os mentirosos acreditam que convencem. Os ouvidores se fazem de moucos. Os governantes se transvestem de loucos. De qualquer sorte, para o bem ou para o mal, tanto os homens como as mulheres parecem conformados seja com o “querido” dos lobistas, ou seja com o “ minta, mas diga que me ama.”

Portanto, realidade, só a virtual. Digam coisas que enlevem o espírito. Alimentem a alma. Façam crescer o ego. E, não nos venham só com verdades. Pois, em algumas situações elas são prá lá de inconvenientes.

*Economista, professor da UFRPE, Consultor de organizações
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